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Indicação de leitura O Conto da Aia


Em 2023 eu fiz um vídeo sobre a minha leitura de O Conto da Aia. Na época eu estava obcecada pelo livro, e corri atrás de ler Os Testamentos logo em seguida.

Como a série está em alta de novo, revisei e editei o texto que usei de base para o vídeo e vou postar aqui, como indicação de leitura.


Quem quiser ver o vídeo, é esse aqui.


Depois tentarei fazer um sobre Os Testamentos também.


O Conto da Aia, de Margaret Atwood, foi publicado em 1985, e é uma ficção científica distópica. Contudo, a autora não considera o livro uma distopia, pois tudo o que acontece na história (o golpe, o fundamentalismo, governo teocrático e a condição das mulheres) foi inspirado por acontecimentos reais presentes em diversos lugares do mundo, e diferentes períodos históricos.


A história é contada pelos relatos da Offred, uma aia que pertence (sim, pertence) a um importante comandante da república de Gilead. E por meio das histórias dela conhecemos um pouco sobre a estrutura dessa sociedade e como as pessoas vivem nela.


Gilead é uma sociedade teocrática, fundamentalista, e extremamente militarizada que ocupa boa parte do que conhecemos como Estado Unidos. Ela foi construída sobre uma ideologia religiosa que se apropriou de diversos discursos de cunho cristão para criar uma religião própria que sustenta um modelo de governo moralista baseado na repressão.


Nos relatos de Offred, temos informações fragmentadas sobre a formação dessa sociedade. Sem muitos detalhes, mas com pistas o suficiente, sabemos que Gilead surgiu de um golpe no governo dos EUA, que já estava sendo gestado há muito tempo por pessoas que conseguiram se infiltrar na política e, aos poucos, foram disseminando seus ideais. Nada aconteceu de repente.


O principal estopim do golpe, e motivo da aceitação por parte da população, teria sido a brusca queda nas taxas de natalidade da população. Isso foi visto como um castigo divino pelo comportamento pecaminoso da população, principalmente das mulheres. 

Sabemos que em algum momento o presidente foi assassinado, o congresso metralhado e a constituição suspensa. Também sabemos, de forma indireta, que armas nucleares foram usadas em algumas regiões do país.

O dia que um cara quis explicar O Conto da Aia pra Margaret Atwood, ignorando as influências claramente cristãs do governo de Gilead.
O dia que um cara quis explicar O Conto da Aia pra Margaret Atwood, ignorando as influências claramente cristãs do governo de Gilead.

Após esse golpe, as mulheres começam a ter suas contas bancárias bloqueadas e a serem demitidas. Logo, todos os direitos básicos conquistados foram totalmente retirados.

Toda a estrutura de Gilead foi construída sobre a ideia de que homens e mulheres possuem papéis específicos e restritos dentro de uma sociedade, então não há espaço para nenhuma outro tipo de identidade e expressão de gênero ou sexualidade. Pessoas LGBTQUIAP+ seriam criminalizadas e punidas com a morte, sempre em praça pública.


Assim, as mulheres foram dividida em grupos:

As Esposas: casadas com os comandantes, os homens poderosos de Gilead. O que as colocaria em uma suposta posição de privilégio.

As Marthas: responsáveis exclusivamente pelos trabalhos domésticos. São mulheres mais velhas ou que não podem ter filhos.

As Tias: essas sim, as únicas mulheres com algum tipo de poder, pois são as únicas que têm permissão de ler e escrever e são responsáveis pela educação e supervisão das outras mulheres e pelo treinamento das aias.

As Econoesposas: esposas dos homens da classe trabalhadora.

As Aias: mulheres que, ao mesmo tempo que tem um papel considerado de extrema importância, são as mais mal vistas e desprezadas por todos. 


As aias são mulheres em idade fértil, consideradas pecadoras (solteiras, mães solo, segundo casamento, que moram com o parceiro sem estar casada, lésbicas, bissexuais, mulheres de outras religiões, etc). Elas são tiradas de seus lares e entregues aos comandantes que não tem filhos.


O trecho usado para justificar a posse de aias.
O trecho usado para justificar a posse de aias.

Uma vez por mês, no período fértil da aia, acontece o que é chamado de A Cerimônia, que é o ritual no qual o comandante lê o trecho da bíblia que justifica a existência das aias (Gênesis 30: 1 - 3)  para todos de sua casa. O que se segue é o estupro institucionalizado da aia, do qual a esposa participa (querendo ou não), pois a criança que seria gerada, pertenceria ao casal, sendo a aia apenas o receptáculo.


Para que esse sistema se sustente, as mulheres vivem sob extrema vigilância e tem sua existência reduzida a um papel específico e um lugar específico. São proibidas de ler e escrever, não podem sair ou socializar, exceto em situações determinadas. Até mesmo suas habilidades físicas básicas são gradualmente enfraquecidas. As aias usam um chapéu que as impede de olhar para cima e para os lados. 


Offred fala muito sobre o tédio dessa vida, e como essas privações condicionariam a próxima geração de mulheres a se tornarem cada vez mais vulneráveis e resignadas. 


Algo que eu acho muito interessante é a forma como a autora conseguiu pontuar muito bem a importância da desunião entre as mulheres para a manutenção do sistema de opressão.


Infelizmente, muitas mulheres ainda preferem se aliar ao sistema que nos oprime.
Infelizmente, muitas mulheres ainda preferem se aliar ao sistema que nos oprime.

Grande parte do sucesso do modelo de sociedade de Gilead se deve a atuação das próprias mulheres, que são colocadas em posições desiguais, onde algumas exercem poder sobre outras, o que constrói uma atmosfera de rivalidade, fazendo-as agir umas contras as outras.


Assim, mesmo estando todas à mercê de um governo extremamente machista que as desumaniza e as trata como meros objetos, elas continuam a se tratar com desconfiança e inveja, mantendo-se afastadas, isoladas e, assim, sempre vulneráveis. 




Fico impressionada com a habilidade de Margaret Atwood de contar uma história tão perturbadora e dolorosa de maneira tão poética e refinada. Sua escrita elegante e fluída facilita muito a leitura, mesmo nos momentos mais difíceis. Ela sabe dosar bem as descrições, momentos de reflexão e momentos de tensão.


Ainda assim, o tema do livro é pesado e a história fica na mente do leitor por um bom tempo. 


O Conto da Aia é um assustador alerta sobre uma realidade que hoje deixou de ser uma ameaça distante e se tornou uma possibilidade cada vez mais próxima.


Margaret Atwood nos incita a refletir sobre como a nossa liberdade é frágil e pode nos ser roubadas aos poucos de forma que, quando percebermos, será tarde demais. Que devemos estar sempre atentas, pois em qualquer crise, nossos direitos serão os primeiros a desaparecer. E enquanto existirem mulheres em situação de violência e vulnerabilidade, nossa liberdade estará sempre por um fio.


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