Indicação de Leitura: Saboroso Cadáver.
- Keyla Fernandes

- há 4 dias
- 3 min de leitura
Queria ter feito o vídeo, mas não consegui. Então vocês que lutem para ler a indicação em texto.

No final de 2025, finalmente li Saboroso Cadáver, da autora Argentina Agustina Bazterrica, que eu queria ler já fazia um bom tempo.
O livro é uma distopia de horror muito perturbadora, mas que soa muito real. Parece clichê falar isso, mas é verdade.
A história acompanha Marcos Trejo, que trabalha em um frigorífico e é o braço direito de seu chefe.
Por meio do dia-a-dia do Marcos, a autora vai nos revelando, sem pressa, mas sem enrolar, um mundo (nosso mundo) no qual um vírus tornou a carne animal imprópria para consumo.
Depois de um período de pânico e violência, o governo toma medidas drásticas para legalizar e regulamentar o consumo de carne humana de maneira organizada.
Todo esse processo é chamado de Transição, e apesar de as dicas da autora serem o suficiente para entendermos, não há tantos detalhes sobre como isso aconteceu.
O que sabemos é que, quando a legalização aconteceu, pessoas em situação de vulnerabilidade, como desabrigados e imigrantes, começaram a desaparecer.
Até chegarmos no ponto no qual Marcos está: fazendas criam, selecionam e vendem seres humanos para o consumo da carne chamada de carne especial.
Marcos negocia as “cabeças” (é crime chamar a carne de ser humano). Ele faz os pedidos, compra, determina as que serão abatidas e as que serão enviadas a uma reserva de caça. Ele também seleciona a mercadoria cuja pele será extraída e vendida para um curtume.
A história é narrada em terceira pessoa, o que parece ter incomodado muitos leitores, segundo resenhas e avaliações que vi por aí. A narrativa é toda no presente, algo que tem chance de ser desastroso, caso o autor não tenha habilidade o suficiente, o que não é o caso. Agustina Bazterrica domina muito bem esse estilo narrativo e nos coloca dentro da história, como observadores em tempo real.
A escrita da autora é direta, crua e fluída. Mesmo sendo um livro pesado e difícil, por conta do tema, li bem rápido, pois a escrita é instigante. E em alguns momentos me lembrou os livros da Ana Paula Maia, que também tem uma escrita crua, direta, mas muito interessante. Já o tema e a forma como as mudanças sociais ocorreram, me lembrou O Conto da Aia.

Um ponto que chamou muito a atenção é como a autora destaca a importância e o poder das palavras para a construção da realidade. Ela enfatiza como cada personagem soa, como eles falam e como articulam seus discursos e o que escondem por trás deles, usando isso como parte importante da construção das personagens, nos revelando coisas íntimas sobre cada uma.
Afinal, temos uma sociedade, na qual comer seres humanos se tornou algo comum e esperado das pessoas “normais”. O discurso para legitimar esse novo modelo social, foi construído com cuidado, com expressões selecionadas e outras proibidas e até criminalizadas, para naturalizar algo que era considerado uma barbárie.
Ao longo da história, entendemos o quanto as palavras tem o poder de moldar a nossa realidade, o quanto discursos fortalecem e legitimam comportamentos. Que quando escolhemos não dar o devido nome às coisas, acabamos por suavizar, e até naturalizar, a desumanização, as violências e a indiferença.




Comentários