As referências históricas em Nosferatu de Robert Eggers
- Keyla Fernandes

- há 2 dias
- 3 min de leitura
Escrevi esse texto no ano passado, um pouco depois de ver o filme e ficar obcecada.
Postei no Substack, mas não sei porque não postei aqui.
Então, estou postando a defesa ao bigodão do Conde Orlok.

As histórias de vampiro que conhecemos hoje tem origem no folclore da Europa Central e Leste Europeu. Existem diversos relatos históricos que nos contam sobre a crença em mortos-vivos que deixavam seus túmulos durante a noite para tocar o terror nos vivos. No remake de Nosferatu, dirigido por Robert Eggers, essas referências históricas foram usadas para dar mais profundidade à história e causar um efeito ainda mais sombrio e inquietante.
A figura do vampiro que temos hoje, tem origem em relatos das regiões do Reino Unido, Itália, Europa Central e Leste Europeu. Apesar de aparecerem desde o período medieval, a maior parte deles é dos séculos XVI e XVII, XVIII. Esses relatos contam de pessoas mortas que saíam de seus túmulos para consumir a vida de animais e de outras pessoas, geralmente da família. Existem relatos de exumações, nas quais os mortos eram decapitados, ou tinham uma estaca enfiada no peito, ou ainda um tijolo colocado na boca, para impedir que atacassem de novo. Há uma cena de exumação no filme, é bem rápida, mas bem interessante na qual podemos ver uma dessas exumações.
A imagem do Conde Orlok, na versão de Robert Eggers, é a de um homem nobre da Transilvânia da Idade Média. Por isso ele ostenta um enorme bigode que, não sei porquê, desagradou muita gente. Suas roupas, apesar de puídas, são suntuosas e antigas, indicando sua posição social e período histórico.

Conde Orlok é morto-vivo, que apesar da aparência assustadora, é capaz de exercer um grande poder de sedução (não apenas sexual) sobre a mente dos mortais. O caráter monstruoso, amaldiçoado e faminto do vampiro fica bem destacado na sua aparência física, na sua voz e no seu comportamento predatório.

Orlok se aproveita do estado frágil de Ellen, de sua solidão, confusão e desespero, utilizando-se disso para sair de seu sono milenar. Sua motivação para encontrá-la não é o amor. Ele não fala em amor em nenhum momento. O que o move é o desejo, a fome, a necessidade de possuir e consumir.
O vampiro é um monstro. Inteligente, sedutor e poderoso, mas ainda assim, um monstro.
Vampiros, segundo os relatos, também teriam uma forte ligação com seu túmulo e a terra onde foram sepultados, não podendo ir muito além de onde estavam enterrados, pois quanto mais distantes desse solo, mais fracos ficariam. Essa referência está presente na versão original de Nosferatu (a cena maravilhosa do Conde carregando seus caixões), no remake e em Drácula de Bram Stoker (livro e filme), e é um ponto de grande importância na história.

Muitas vezes, a presença do vampiro em um local era relacionada à uma epidemia e às mortes pela peste. Outra referência utilizada pelo diretor. Nosferatu carrega a morte consigo para onde quer que vá. Ele é acompanhado por milhares de ratos, e espalha uma praga que afeta, não apenas o corpo, mas a mente das pessoas, deteriorando seu juízo e sua moral.
Por fim, temos a figura vibrante do Prof. Albin Eberhart Von Franz, um estudioso da ciência e do oculto.O fenômeno do vampirismo chegou a ser estudado cientificamente e, 1732 Johannes Fluckinger, médico austríaco, assinou um relatório detalhando suas investigações sobre vampirismo na Sérvia. Ele relata sobre um homem chamado Arnold Paole, que foi culpado por cinco mortes misteriosas na vila de Meduegna, na região da Sérvia. O homem alegava ter sido mordido por um vampiro e morrido. Acredita-se que foi por meio desse relatório que a palavra “vampire” ou vampyre” entrou na língua inglesa.

É notável que Robert Eggers se dedicou a uma pesquisa profunda e completa sobre o mito e o simbolismo do vampiro. Ele não apenas mantém as referências literárias, como se utiliza da pesquisa histórica para tornar sua história ainda mais envolvente e coesa.
E para todos aqueles que não conseguiram lidar com o bigodão, digo apenas:

Referências
BARROS, Fernando Monteiro. VAMPIRO. Dicionário Digital do Insólito Ficcional (e-DDIF). Rio de Janeiro: Dialogarts. <http://www.insolitoficcional.uerj.br/site/v/vampiro/>
________. Baudelaire, Byron e Lúcio Cardoso: A flânerie e o dandismo do vampiro. Soletras. RJ, n. 05-06, 2003. Disponível em: <https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/soletras/article/view/4456>
COSTA, Danielle. A Literatura e o vampiro no século XIX. Revista Garrafa. v.04, n. 05. 2006. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/garrafa/article/view/7499>
LECOUTEUX, Claude. História dos vampiros: autópsia de um mito. Tradução de Álvaro Lorencini. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
MELTON, J. Gordon. O Livro dos Vampiros: A enciclopédia dos mortos-vivos.Tradução de James F. Sunderlank Cook. São Paulo.Editora: Makron Books, 1994


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